2026-09-06

0462. «O ateísmo não existe...»

 


«O ateísmo não existe… e a culpa é dos ateus»

Observador, Ricardo Ferreira, 26 abr. 2026

 

https://observador.pt/opiniao/o-ateismo-nao-existe/

 

«O ateísmo não existe… e a culpa é dos ateus»

(…)

O ateísmo enquanto certeza, enquanto afirmação positiva da inexistência de Deus, tem ainda outro problema adicional, que apenas alguns ateus mais honestos reconhecem aceitando o custo. Para afirmar com certeza que Deus não existe em nenhum lugar, sob nenhuma forma, em nenhuma dimensão possível da realidade, seria necessário um conhecimento total e exaustivo de tudo o que é. Seria necessário o conhecimento total do passado, do presente e do futuro. Tanto quanto sei, nenhum humano tem esse conhecimento.

Quando falamos de ateísmo como certeza, falamos de uma fé. Uma fé invertida, mas ainda assim, fé. E esta fé exige o mesmo que os ateus criticam aos crentes em Deus: um salto além do que a evidência permite. Com uma importante diferença: os crentes em Deus admitem-no e os ateus torcem a narrativa para não admitir o salto.»

(…)

O ateísmo nada conclui e nada prova. É uma identidade que, como qualquer outra identidade abstracta, não passa no seu próprio teste. O que tem a sua piada, porque o lugar onde o ateísmo claramente não existe é exactamente o lugar onde o ateu mais insiste em verificar as coisas: na evidência empírica.

Ricardo Ferreira

 

 ---


Não foi pela indiferença de saber quem é, mas apenas pela diferença de análise que optei por não efetuar qualquer pesquisa sobre a sua pessoa…

Assim, após uma segunda leitura algo mais atenta ao texto…

 

Meu caro desconhecido Ricardo Ferreira,

 

Como ateu, “confesso” que a minha postura não foi nada “comovente”; pelo contrário; diria que senti uma misericordiosa necessidade de responder, sobretudo pela sua animosa referência ao ateísmo. É realmente um grandioso texto, do qual, depois de bem exprimido, não resultou praticamente nenhum sumo.

 

Quero, antes de mais, salientar que é impossível comparar o incomparável!

Ateísmo é simplesmente uma consequência do pensamento racional. Não implica existência, mas sim ausência de crença. Ausência de crença num ou mais deuses.

Não se pode comparar o ateísmo a uma crença!

 

O ateísmo, tal como o teísmo, só existe como conceito mental abstrato, porque um qualquer iluminado, baseado num simples ato de fé pessoal, afirma que existem entidades supranaturais. Se existisse alguma entidade supranatural, obviamente que não se justificaria a sua existência, uma vez que a crença esvaziar-se-ia deixando de fazer qualquer sentido. Se não houvesse pessoas a acreditar no que não vêm e não podem provar, obviamente que não existiria ateísmo nem teísmo.

Ateísmo não é uma filosofia em que possamos acreditar ou desacreditar, como devotamente procura confecionar. É um posicionamento de ausência de crença. É a admissão do óbvio com base na leitura racional que a ciência e a realidade nos mostram e demonstram. É a simples escolha do evidente e faz parte desta liberdade que hoje a laicidade nos concede; tal como a escolha do dogma religioso por mais absurdo ou ridículo que seja.

O ateísmo é simplesmente uma postura intelectual baseada na lucidez, na capacidade de duvidar, de analisar, de quem continua permanentemente a evoluir na sua compreensão e resulta de um processo de evolução pessoal, intelectual e ético.

O ateísmo não é apresentado como imposição ou superioridade, mas como consequência natural do pensamento racional, crítico e científico. Valoriza a liberdade individual, o humanismo, a tolerância, a solidariedade e a paz como pilares para uma sociedade mais equilibrada e sustentável.

O ateísmo não é negação ou combate à fé alheia, mas uma constatação baseada em factos e evidencias, afastando a crença no sobrenatural. Mais do que um rótulo, trata-se de uma forma consciente de estar no mundo, de viver o presente e procurar o conhecimento e a verdade através da razão.

Nenhum ateu parte da premissa que já conhece a verdade. O ateu analisa, erra, muda de opinião, acerta, erra, muda de opinião, acerta… até conhecer a verdade.

Nenhum ateu nega a existência de uma alegada entidade supranatural, vulgo «deus». Constatando a inexistência de provas ou evidências da sua existência, simplesmente não acredita no que o crente afirma existir com base num intrínseco ato de fé. Tendo em conta que essa suposta entidade supranatural se limita a uma imagem mental abstrata que varia conforme a imaginação do criador ou imputador, parece evidente que, qualquer mente minimamente ciente, não pode negar o que não existe, ou simplesmente confirmar a materialidade do amigo imaginário criado pelo próprio homem. Não podemos provar a sua inexistência porque só a existência pode ser provada. Daí que o ónus da prova esteja do lado do crente. O que negamos é a crença e não o conhecimento!

 

Resumindo…

Ser ateu não é negar ou lutar contra qualquer crença alheia.

Ser ateu é simplesmente constatar a inexistência de qualquer entidade divina.

Ser ateu é simplesmente raciocinar sobre a realidade dos factos.

Ser ateu é simplesmente retirar conclusões com base em provas fidedignas.

 

E concluindo…

O ateísmo não é nenhuma crença. O ateísmo não se impõe. É uma opção que resulta duma forma racional de estar e lidar com a realidade!

 

 

P.S. Como ateu, “confesso” que não acredito que uma mente realmente inteligente acredite no sobrenatural. Reconheço que o ateísmo não implica inteligência, mas realmente a inteligência pode levar qualquer mente minimamente racional ao ateísmo.

 

Autor: Carlos Silva
Data: 2026-09-06
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2026-08-06

0461. Negação

 



Afirmam que o ateísmo nega a existência de “deuses”!

Ora, obviamente que nenhum ateu nega a existência de nenhuma alegada entidade supranatural, vulgo «deus».

Constatando a inexistência de provas ou evidências da sua existência, simplesmente não acredita no que o crente afirma existir com base num simples e intrínseco acto de fé. Tendo em conta que essa suposta entidade supranatural se limita a uma imagem mental abstrata que varia conforme a imaginação do criador ou imputador, obviamente que, qualquer mente minimamente ciente, não pode negar o que não existe, ou simplesmente confirmar a materialidade do amigo imaginário criado pelo próprio homem.

 

A maioria das grandes organizações religiosas deixaram de ser meros locais de culto onde os fiéis seguidores vão pregar a sua fé e ultrapassaram os limites da própria crença. Transformaram-se em instrumentos de política e controlo de massas; em autênticas multinacionais com um património desmesurável e um denominador comum: o «deus dinheiro». O produto fictício mais rentável do mundo!

A maioria destas grandes multinacionais religiosas estão profundamente enraizadas na sociedade contemporânea e dominam o Estado, a justiça, a cultura, a família… ao ponto de determinam o certo e o errado, a moral e o imoral, a verdade e a mentira. Escolhem a tua religião, o que fazes, o modo como te comportas e a forma como pensas…

Tens que amar e adorar incondicionalmente o «deus» que constantemente te observa e determina a tua própria vida. Tens que obedecer e acreditar incondicionalmente em tudo o que te diz. Tens que o servir e trabalhar voluntariamente para ele. No final, a tua recompensa estará no céu. Por isso promete a eternidade, a felicidade… e que, na pele de adulto, sejas uma eterna criança!

Em vida exige-te dinheiro, sofrimento e sobretudo que abdiques de pensar e questionar a sua existência. Se não o fizeres serás excomungado, castigado e encaminhado eternamente para o “inferno”!

 

Desperta!

Não tenhas medo de sair da tua jaula mental e voar plenamente!

Sair e voar plenamente apenas depende de ti!

Afinal, tu não és de ninguém! Tu não pertences a nenhum rebanho e muito menos a uma suposta divindade, crença ou religião que precocemente te incutiram para te dominar.

Não há monstro que prenda uma mente livre e sã! Deixa fluir o pensamento... deixa-o explorar os limites da realidade. Só depois de alcançares a plena consciência terás discernimento para escolher o teu próprio caminho.

 

Desperta!

Sê tu próprio… sem muletas… sem limites… sem fronteiras!

 

Está na hora de perderes a vergonha e o medo de questionar.

Está na hora de recuperares a autonomia e assumires as tuas próprias escolhas.

Está na hora de definires e construíres o teu próprio caminho.

Está na hora de te libertares definitivamente das garras do teu monstro eterno!

 

Está na hora de viveres a tua única e preciosa vida!

Aproveita e desfruta-a plenamente!

Agora!

 

Autor: Carlos Silva
Data: 2026-08-04
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2026-07-10

0460. Congresso TJ

 



 

https://expresso.pt/religiao/2026-07-10-estadio-do-dragao-recebe-40-mil-testemunhas-de-jeova-para-congresso-sobre-o-caminho-para-a-felicidade-a116ba72

 

«Estádio do Dragão recebe 40 mil Testemunhas de Jeová para congresso sobre "o caminho para a felicidade»

Expresso

 

“O objetivo deste evento, como o próprio nome indica, é a felicidade, porque todos queremos ser felizes”, afirmou à Lusa o porta-voz do congresso, Marco Santos...

(…)

A busca da felicidade foi o tema escolhido para este ano e é repetido em 19 congressos internacionais ao longo de 2026 em todo o mundo.

“A realização do evento deverá ter impacto na economia local, com o afluxo de visitantes no comércio, nos muitos cafés, restaurantes e hotéis, assim como nos destinos turísticos populares desta região”, refere a organização.

Expresso

 

 

Caso alguém não consiga encontrar o caminho para a felicidade e pretenda descobri-lo, pois, basta assistir ao congresso das Testemunhas de Jeová para descobrir o respetivo azimute!

Qual "pescadinha de rabo na boca", o objetivo principal é a “FELICIADE” e não o impacto económico do evento na economia local -aliás, realçado pela organização.

Já as Jornadas Mundiais da Juventude religiosa foram justificadas até ao limite com o enorme impacto económico no País, em particular na Câmara de Lisboa… -claro que para a Igreja Católica o impacto seria apenas espiritual, uma vez que estava apenas preocupada com a felicidade e o bem-estar dos seus fiéis seguidores!

Não deixa de ser já um padrão que todos os grandes eventos religiosos que envolvam grandes massas sejam dinamizadores da economia -especialmente a economia dos organizadores.

O isco secundário mascarado de primário começa a ser recorrente… a “felicidade”, a “eternidade”, a “caridade”, o amor e o bem-estar do mais pobres e desfavorecidos -naturalmente os principais contribuintes do evento.

Hotéis e restaurantes lotados, comércio de produtos alusivos a fervilhar… -um autêntico milagre contabilístico!

A imagem da “felicidade” e da “eternidade” passa facilmente e os fiéis aderem a ela praticamente de olhos fechados.

É evidente que onde há uma grande massa de fé organizada há grande circulação do “deus dinheiro” … e todos ganham com isso!

 

Autor: Carlos Silva
Data: 2026-07-10
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2026-07-04

0459. Oferecer orações

 


«O Papa Leão XIV oferece orações às vítimas do terremoto na Venezuela».

Durante um evento realizado em Roma, o pontífice expressou «esperança de que a solidariedade global com o país perdure».

CNN Brasil Claudia Chieppa, da Reuters, 27/06/26

 

O Papa Leão XIV ofereceu orações ás vítimas do terramoto na Venezuela e expressou esperança de que a solidariedade global perdure.

Pois é! É o que a Igreja Católica sempre fez e continua a fazer perante as grandes tragédias que assolam a humanidade. Oferecer orações, que é como que diz, não fazer absolutamente nada e ficar sentada na esperança que outros façam alguma coisa.

Oferecer ajuda financeira aos afetados? Não! Se for receber…

Vamos lá orar pelas vítimas do terramoto na Venezuela e pedir ao Divino que ajude os sobreviventes a superar as nefastas consequências do terramoto, supostamente por Ele próprio criado, tendo em conta a sua suprema omnipotência.

Mas como é que o Supremo pode causar tamanha mortandade e depois os seus divinos representantes virem a público pedir ajuda por uma tragédia por ele próprio provocada? Algo aqui não bate certo… afinal o terramoto foi ou não vontade de “deus”?

O Terramoto não foi vontade de “deus” –desculpar-se-ão os mais acérrimos crentes. Mas se não foi vontade, como é que permitiu tão desmedida tragédia? Onde é que está a sua magnânima bondade? Como pode permitir a morte de milhares de pessoas, muitas delas inocentes crianças?

Alguns reconhecerão que foi realmente vontade divina; que quis castigar os infiéis e os pecadores. Mas porque é que todos teriam que pagar por isso?

Pronto, não vale a pena questionar mais. Ele lá terá as suas razões que naturalmente fogem à compressão humana. Ele está certo e age sempre de forma absolutamente justa.

Se algum herege disser que orar é comprovadamente uma ação inútil e uma forma de justificar e demonstrar inércia e ignorância perante uma tragédia, não façam caso!

Se algum herege disser que o terramoto na Venezuela nada tem a ver com supostos deuses, porque obviamente não existem, nem nunca existiu qualquer prova da sua existência, também não façam caso!

 

Mas o que ilações podemos retirar dos factos?

 

Na Venezuela já há mais de 2.500 mortos confirmados, 11 mil feridos e um número indeterminado de desaparecidos.

No Japão, um dos países mais afetados por terramotos, por se situar no chamado “Anel de fogo” da região, também ocorreu um terramoto de magnitude 7,2, quase da mesma magnitude da Venezuela, e os danos provocados foram praticamente nulos ou moderados e não houve qualquer vítima mortal?

Para este terramoto não foram precisas orações porque não morreu ninguém!

Pelos vistos os japoneses não acreditam nem ficaram à espera de orações ou ajudas divinas. Simplesmente investigaram as causas dos terramotos e investiram/desenvolveram tecnologia na construção de edifícios antissísmicos. Também emitiram alertas prévios à população, o que pode ser sido um fator determinante para evitar mortes.

Decisivo é também o facto dos japoneses educaram e prepararem os seus cidadãos, para responderem racionalmente a este tipo de tragédias e não se limitarem a frequentar igrejas e a pedir a um suposto “deus” que os proteja, ou, após uma tragédia desta dimensão, a orar pelos mortos, como se estivessem a prestar uma inestimável ajuda.

 

«Oferecer orações?!…»

 

Não ofendam a inteligência humana e respeitem as vítimas do terramoto, muitas delas ainda debaixo dos escombros!

 

Autor: Carlos Silva
Data: 2026-06-27
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2026-06-17

0458. Ofensa

 


É obviamente impossível ofender “deus”.

É obviamente impossível ofender o que não existe!

Pode-se ofender o criador da ideia, o mentor, o explorador… pode-se até, implicitamente, ofender o fiel seguidor da ideia, mas nunca uma imagem mental abstrata, ou de pedra, de um suposto criador divino.

Negar a existência de entidades supranaturais, por falta de provas ou evidências, é perfeitamente legítimo; tal como é legítimo afirmar a sua existência com base na fé pessoal -nunca uma ofensa à dignidade ou legitimidade de quem acredita.

É, pois, perfeitamente legítimo questionar, desmascarar e desmistificar dogmas religiosos -a liberdade de expressão é um direito inalienável e constitucionalmente consagrado, tal como acreditar em entidades supranaturais.

O que é realmente ofensivo é o amor cristão pelo dinheiro… -pelo “deus dinheiro”. Já o Papa[1] reconhecia que a «idolatria do dinheiro mata». A incalculável riqueza exibida pela Igreja Católica, sobretudo por parte do Vaticano, não mata… mas é uma ofensa aos olhos dos “comuns mortais” que lutam por colocar pão na mesa dos filhos.

Estima-se que a Igreja Católica tenha atualmente ao seu serviço 1 Papa, cerca de 252 cardeais, 5.525 bispos e 407.000 padres que se dedicam à exploração do seu produto fictício, através de negócios astronómicos no ramo imobiliário, turismo religioso, banca, investimentos financeiros, doações… além de uma infinidade de proveitos resultantes do comércio de “serviços” e “merchandising” religioso.

O dinheiro que a Igreja Católica movimenta a nível mundial e a dimensão do seu património é de tal modo obsceno[2] que é praticamente impossível calcular com exatidão a sua totalidade.

Se a Igreja Católica doasse uma décima parte da sua riqueza à UNICEF certamente que mataria a fome de praticamente todos os pobres e pedintes do planeta.

E o que dizer de Fátima…

 

«O Santuário de Fátima proíbe a mendicidade dentro dos seus templos, incluindo a Basílica da Santíssima Trindade e a Basílica de Nossa Senhora do Rosário. A segurança do santuário tem autoridade para afastar pedintes e garantir o decoro e a ordem nos espaços de culto. A instituição emite frequentemente alertas e reforça a fiscalização para evitar o assédio aos peregrinos no recinto. Esta restrição baseia-se nos regulamentos internos do espaço religioso».

 

Independentemente da legitimidade ou desumanidade da proibição que a Igreja Católica pretenda determinar aos mendigos (esses desleais concorrentes), o que é realmente ofende é a atitude, uma vez que ela própria se comporta de forma explicita e vergonhosa como uma autêntica mendiga; ora proibindo e discriminando, ora pedindo e implorando precisamente àqueles que pouco ou nada têm.

O que realmente ofende é o uso da religião como arma para escravizar e explorar os mais pobres e os mais fracos… como fonte eterna de sobrevivência e perpetuação.

 

É obviamente impossível ofender “deus”.

É obviamente impossível ofender o que não existe!

Obviamente que também não pretendo ofender quem tem ou acredita no seu amigo imaginário!

Apenas expressar a minha opinião, que vale o que vale, tal como todas as outras.

É um privilégio poder fazê-lo em liberdade de consciência; no pleno gozo das minhas faculdades mentais e sem qualquer ameaça de fogueiras ou infernos.

Tal como muitos fizeram no passado, é uma obrigação defender os mais vulneráveis e os que mais sofrem…

 

Desperta!

 

Autor: Carlos Silva
Data: 2026-06-11
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[1] Francisco

[2] Elevado



2026-06-14

0457. Normal

 



Observe atentamente a imagem…

Procure recuar um pouco no tempo e imagine-se criança de pele clara, sorriso rasgado, observando uma outra criança de pele escura, presa numa jaula, sofrida e triste, cuja única diferença em relação a si é apenas a cor da pele.

 Imagine-se criança mimada observando curiosamente uma criança enjaulada, como se de um brinquedo se tratasse, como se num jardim zoológico contemplasse um qualquer animal e toda a gente considerasse o evento perfeitamente normal.[1]

Os seus pais consideram completamente normal.

O Estado aprova como normal e a Igreja Católica abençoa a normalidade.

Ninguém se comove minimamente com o sofrimento da criança negra nem toma qualquer iniciativa para a libertar porque todos consideram o seu estado absolutamente normal.

E porque é que todos o consideravam normal?

Porque foram ensinados a olhar para seres humanos de pele escura como diferentes ou como um produto que se pode exibir, comprar e vender. Foram imunizados ao sofrimento alheio e a humanidade completamente anulada.

O colonialismo europeu e a escravatura, perduraram por mais de quatro séculos, grande parte em África e perduraram praticamente até finais do século XX. Durante centenas de anos gerações inteiras consideraram a escravatura absolutamente normal ao ponto da Igreja Católica a legitimar na própria Bíblia, nomeadamente no que se refere a punições e regras hediondas, relativamente ao comportamento de escravos e dos seus “legítimos donos”.

Durante séculos o conceito de Liberdade foi interpretado do ponto de vista d do esclavagista ou do poder instituído. Ainda hoje, em determinadas culturas, continua a ser um conceito subjetivo e interpretado de forma relativamente discriminatória.

Quem hoje tem o privilégio de dizer: «Sou livre», não se pode acomodar e ficar indiferente às constantes violações da liberdade alheia. Se hoje se cala, provavelmente, há um século atrás, também não se importaria que aquela criança de pele negra estivesse enjaulada, porque também acharia normal. Continuará a achar perfeitamente normal até um dia também acordar preso numa qualquer jaula ou no interior da própria mente, sem que de tal tenha consciência.

Hoje, mais do que nunca, importa valorizar a Liberdade e nunca a dar como adquirida. É preciso cuida-la e preserva-la. É preciso ter a perfeita noção do quão frágil pode ser a linha que a separa da Ditadura e o elevado preço em vidas humanas que se pode pagar para a recuperar.

Foi por esta sua Liberdade que inúmeras gerações se sacrificaram… lutaram e perderam a vida.

Convém nunca esquecer que a maioria das violações de liberdade foram cometidos por pessoas comuns que acreditavam piamente que uma criança negra numa gaiola era algo absolutamente normal e estavam a cumprir a sua obrigação moral e cultural de educar os próprios filhos.

Quantas fotografias hoje observamos como sendo normais e as gerações futuras considerarão chocantes?

Certamente muitas!

 

Por isso…

Importa despertar e lutar para que nenhuma criança volte a ser enjaulada!

Importa recordar ás gerações futuras o valor da Liberdade!

Autor: Carlos Silva
Data: 2026-05-08
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Obs.:
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[1] Na realidade também não é normal, no jardim zoológico, contemplar um qualquer animal que deveria viver em plena liberdade no seu habitat natural.