Na
sua “Magnifica Humanitas” e em nome da Igreja Católica, o Papa Leão XIV, pediu hoje
«perdão pela demora da Igreja católica em condenar o flagelo da
escravatura».
«É
inevitável sentir uma profunda tristeza ao considerar o enorme sofrimento e humilhação
que a escravatura representou para tantos» -referiu, reconhecendo a participação
do Vaticano na legitimação da escravatura, que inegavelmente representa uma «ferida
na memória cristã».
Perdão
pelo apoio explicito da Igreja Católica a todo um sistema esclavagista que durante
séculos foi maquiavelicamente delineado por clérigos, contruído por reis e
nobres, e expandido por grupos económicos e comerciantes para subjugar, explorar
e enriquecer à custa de seres humanos que eram vistos e tratados como simples
mercadoria?
Perdão
pelo facto do “Velho” e do “Novo Testamento” defenderem e incitarem declaradamente
a “escravatura” e, inclusivamente, ditarem as regras relativamente ao
comportamento dos “escravos” e dos seus “donos”?
Diz
o Antigo Testamento:
“E
quanto a teu escravo ou a tua escrava que tiveres, serão das nações que estão
ao redor de vós; deles comprareis escravos e escravas.
Também
os comprareis dos filhos dos forasteiros que peregrinam entre vós, deles e das
suas famílias que estiverem convosco, que tiverem gerado na vossa terra; e vos
serão por possessão.
E
possui-los-eis por herança para vossos filhos depois de vós, para herdarem a
possessão; perpetuamente os fareis servir; mas sobre vossos irmãos, os filhos
de Israel, não vos assenhoreareis com rigor, uns sobre os outros.”
Levítico
25:44-46
Diz
o Novo Testamento:
“Vós,
servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na
sinceridade de vosso coração, como a Cristo;”
Efésios
6:5
“Todos
os que estão sob o jugo da escravidão devem considerar os próprios senhores
como dignos de todo o respeito; para que o nome de Deus e a doutrina não sejam
blasfemados. Os que têm senhores fiéis não os desrespeitem, por serem irmãos;
ao contrário, sirvam-nos ainda melhor, porque são fiéis e amigos de Deus, que
se beneficiam de seus bons serviços.”
1
Timóteo 6: 1, 2
Quantos
homens, mulheres e crianças foram torturados e arrancados
à força da sua terra, do seu lar e da sua cultura?
Quantos
homens, mulheres e crianças foram acorrentados em porões de “navios negreiros”
e arbitrariamente condenados a serem escravos de um senhor da terra… e do céu?
Quantos
homens, mulheres e crianças foram mortos, estuprados, mutilados, separados das
famílias e vendidos como animais para alimentar a Europa colonialista e o
próprio Vaticano?
É
inegável que as atuais gerações continuam a sofrer e a pagar as contas da escravatura!
A
maioria dos países africanos alvo de escravatura e pilhagem dos seus recursos
económicos, vivem ainda hoje num estado de pobreza estrutural, culturalmente dependentes
e religiosamente manipulados.
Os
atuais “senhores” continuam sentados à sombra da riqueza construída com o sangue
suor e lágrimas dos seus ancestrais escravos.
Tal
como nos processos de abusos sexuais da Igreja Católica que muitos perdões também
merecerão, as indemnizações ou compensações financeiras a atribuir a estados ou
a descendentes de pessoas escravizadas não serão certamente fáceis de
concretizar, para não dizer praticamente impossíveis; no entanto, o Vaticano e
alguns países colonialistas europeus, mais do que perdões ou pedidos de
desculpa, poderiam avançar com iniciativas de reparação de danos sociais e
económicos, nomeadamente a criação de infraestruturas industriais, apoio à
formação profissional e universitária, e, porque não, cancelar ou restruturar a
dívidas dos países maioritariamente afetados pela escravatura.
Tal
não se resolve com orações e muito menos com perdões!
Autor: Carlos Silva
Data: 2026-05-25
Imagem: Internet
Obs.:
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