«O
ateísmo não existe… e a culpa é dos ateus»
Observador,
Ricardo Ferreira, 26 abr. 2026
https://observador.pt/opiniao/o-ateismo-nao-existe/
«O
ateísmo não existe… e a culpa é dos ateus»
(…)
O
ateísmo enquanto certeza, enquanto afirmação positiva da inexistência de Deus,
tem ainda outro problema adicional, que apenas alguns ateus mais honestos
reconhecem aceitando o custo. Para afirmar com certeza que Deus não existe em
nenhum lugar, sob nenhuma forma, em nenhuma dimensão possível da realidade,
seria necessário um conhecimento total e exaustivo de tudo o que é. Seria
necessário o conhecimento total do passado, do presente e do futuro. Tanto
quanto sei, nenhum humano tem esse conhecimento.
Quando
falamos de ateísmo como certeza, falamos de uma fé. Uma fé invertida, mas ainda
assim, fé. E esta fé exige o mesmo que os ateus criticam aos crentes em Deus:
um salto além do que a evidência permite. Com uma importante diferença: os
crentes em Deus admitem-no e os ateus torcem a narrativa para não admitir o
salto.»
(…)
O
ateísmo nada conclui e nada prova. É uma identidade que, como qualquer outra
identidade abstracta, não passa no seu próprio teste. O que tem a sua piada,
porque o lugar onde o ateísmo claramente não existe é exactamente o lugar onde
o ateu mais insiste em verificar as coisas: na evidência empírica.
Ricardo
Ferreira
Não
foi pela indiferença de saber quem é, mas apenas pela diferença de análise que
optei por não efetuar qualquer pesquisa sobre a sua pessoa…
Assim,
após uma segunda leitura algo mais atenta ao texto…
Meu
caro desconhecido Ricardo Ferreira,
Como
ateu, “confesso” que a minha postura não foi nada “comovente”; pelo contrário;
diria que senti uma misericordiosa necessidade de responder, sobretudo pela sua
animosa referência ao ateísmo. É realmente um grandioso texto, do qual, depois
de bem exprimido, não resultou praticamente nenhum sumo.
Quero,
antes de mais, salientar que é impossível comparar o incomparável!
Ateísmo
é simplesmente uma consequência do pensamento racional. Não implica existência,
mas sim ausência de crença. Ausência de crença num ou mais deuses.
Não
se pode comparar o ateísmo a uma crença!
O
ateísmo, tal como o teísmo, só existe como conceito mental abstrato, porque um
qualquer iluminado, baseado num simples ato de fé pessoal, afirma que existem
entidades supranaturais. Se existisse alguma entidade supranatural, obviamente
que não se justificaria a sua existência, uma vez que a crença esvaziar-se-ia
deixando de fazer qualquer sentido. Se não houvesse pessoas a acreditar no que
não vêm e não podem provar, obviamente que não existiria ateísmo nem teísmo.
Ateísmo
não é uma filosofia em que possamos acreditar ou desacreditar, como devotamente
procura confecionar. É um posicionamento de ausência de crença. É a admissão do
óbvio com base na leitura racional que a ciência e a realidade nos mostram e
demonstram. É a simples escolha do evidente e faz parte desta liberdade que
hoje a laicidade nos concede; tal como a escolha do dogma religioso por mais
absurdo ou ridículo que seja.
O
ateísmo é simplesmente uma postura intelectual baseada na lucidez, na
capacidade de duvidar, de analisar, de quem continua permanentemente a evoluir
na sua compreensão e resulta de um processo de evolução pessoal, intelectual e
ético.
O
ateísmo não é apresentado como imposição ou superioridade, mas como
consequência natural do pensamento racional, crítico e científico. Valoriza a
liberdade individual, o humanismo, a tolerância, a solidariedade e a paz como
pilares para uma sociedade mais equilibrada e sustentável.
O
ateísmo não é negação ou combate à fé alheia, mas uma constatação baseada em
factos e evidencias, afastando a crença no sobrenatural. Mais do que um rótulo,
trata-se de uma forma consciente de estar no mundo, de viver o presente e
procurar o conhecimento e a verdade através da razão.
Nenhum
ateu parte da premissa que já conhece a verdade. O ateu analisa, erra, muda de
opinião, acerta, erra, muda de opinião, acerta… até conhecer a verdade.
Nenhum
ateu nega a existência de uma alegada entidade supranatural, vulgo «deus».
Constatando a inexistência de provas ou evidências da sua existência,
simplesmente não acredita no que o crente afirma existir com base num intrínseco
ato de fé. Tendo em conta que essa suposta entidade supranatural se limita a
uma imagem mental abstrata que varia conforme a imaginação do criador ou
imputador, parece evidente que, qualquer mente minimamente ciente, não pode
negar o que não existe, ou simplesmente confirmar a materialidade do amigo
imaginário criado pelo próprio homem. Não podemos provar a sua inexistência
porque só a existência pode ser provada. Daí que o ónus da prova esteja do lado
do crente. O que negamos é a crença e não o conhecimento!
Resumindo…
Ser
ateu não é negar ou lutar contra qualquer crença alheia.
Ser
ateu é simplesmente constatar a inexistência de qualquer entidade divina.
Ser
ateu é simplesmente raciocinar sobre a realidade dos factos.
Ser
ateu é simplesmente retirar conclusões com base em provas fidedignas.
E
concluindo…
O
ateísmo não é nenhuma crença. O ateísmo não se impõe. É uma opção que resulta duma
forma racional de estar e lidar com a realidade!
P.S. Como ateu, “confesso” que não acredito que uma mente realmente inteligente
acredite no sobrenatural. Reconheço que o ateísmo não implica inteligência, mas
realmente a inteligência pode levar qualquer mente minimamente racional ao
ateísmo.
Autor: Carlos Silva
Data: 2026-09-06
Imagem: Internet
Obs.:
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