2026-06-01

0454. Perdão

 


Na sua “Magnifica Humanitas” e em nome da Igreja Católica, o Papa Leão XIV, pediu hoje «perdão pela demora da Igreja católica em condenar o flagelo da escravatura».

«É inevitável sentir uma profunda tristeza ao considerar o enorme sofrimento e humilhação que a escravatura representou para tantos» -referiu, reconhecendo a participação do Vaticano na legitimação da escravatura, que inegavelmente representa uma «ferida na memória cristã».

 

Perdão pelo apoio explicito da Igreja Católica a todo um sistema esclavagista que durante séculos foi maquiavelicamente delineado por clérigos, contruído por reis e nobres, e expandido por grupos económicos e comerciantes para subjugar, explorar e enriquecer à custa de seres humanos que eram vistos e tratados como simples mercadoria?

Perdão pelo facto do “Velho” e do “Novo Testamento” defenderem e incitarem declaradamente a “escravatura” e, inclusivamente, ditarem as regras relativamente ao comportamento dos “escravos” e dos seus “donos”?

 

Diz o Antigo Testamento:

“E quanto a teu escravo ou a tua escrava que tiveres, serão das nações que estão ao redor de vós; deles comprareis escravos e escravas.

Também os comprareis dos filhos dos forasteiros que peregrinam entre vós, deles e das suas famílias que estiverem convosco, que tiverem gerado na vossa terra; e vos serão por possessão.

E possui-los-eis por herança para vossos filhos depois de vós, para herdarem a possessão; perpetuamente os fareis servir; mas sobre vossos irmãos, os filhos de Israel, não vos assenhoreareis com rigor, uns sobre os outros.”

Levítico 25:44-46

 

Diz o Novo Testamento:

“Vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo;”

Efésios 6:5

 

“Todos os que estão sob o jugo da escravidão devem considerar os próprios senhores como dignos de todo o respeito; para que o nome de Deus e a doutrina não sejam blasfemados. Os que têm senhores fiéis não os desrespeitem, por serem irmãos; ao contrário, sirvam-nos ainda melhor, porque são fiéis e amigos de Deus, que se beneficiam de seus bons serviços.”

1 Timóteo 6: 1, 2

 

Quantos homens, mulheres e crianças foram torturados e arrancados à força da sua terra, do seu lar e da sua cultura?

Quantos homens, mulheres e crianças foram acorrentados em porões de “navios negreiros” e arbitrariamente condenados a serem escravos de um senhor da terra… e do céu?

Quantos homens, mulheres e crianças foram mortos, estuprados, mutilados, separados das famílias e vendidos como animais para alimentar a Europa colonialista e o próprio Vaticano?

É impossível determinar… mas finalmente um representante da Igreja Católica “ferido na sua memória cristã”, vem publicamente reconhecer o erro e pedir “perdão”, como se tais palavras desculpabilizassem ou apagassem todas as atrocidades cometidas e as suas nefastas consequências.

Um pedido de “perdão”, por mais solene que seja, não apaga nem reescreve a história; não reverte a morte nem o sofrimento e muito menos desconstrói o atual sistema religioso que continua a lucrar e a viver opulentamente à custa deste abominável “flagelo” humano.

É inegável que as atuais gerações continuam a sofrer e a pagar as contas da escravatura!

A maioria dos países africanos alvo de escravatura e pilhagem dos seus recursos económicos, vivem ainda hoje num estado de pobreza estrutural, culturalmente dependentes e religiosamente manipulados.

Os atuais “senhores” continuam sentados à sombra da riqueza construída com o sangue suor e lágrimas dos seus ancestrais escravos.

Tal como nos processos de abusos sexuais da Igreja Católica que muitos perdões também merecerão, as indemnizações ou compensações financeiras a atribuir a estados ou a descendentes de pessoas escravizadas não serão certamente fáceis de concretizar, para não dizer praticamente impossíveis; no entanto, o Vaticano e alguns países colonialistas europeus, mais do que perdões ou pedidos de desculpa, poderiam avançar com iniciativas de reparação de danos sociais e económicos, nomeadamente a criação de infraestruturas industriais, apoio à formação profissional e universitária, e, porque não, cancelar ou restruturar a dívidas dos países maioritariamente afetados pela escravatura.

 

Tal não se resolve com orações e muito menos com perdões!

 

Autor: Carlos Silva
Data: 2026-05-25
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2026-05-18

0453. Que importa!


 

Que importa desvendar como tudo começou!

Que importa equacionar como tudo vai terminar!

Importa desfrutar!

Agora!


A verdade é que estou aqui… Agora!

Estou aqui, agora, neste precioso momento a desfrutar tudo o que ouso pensar e sentir.

Poderei já não estar quando estiveres a sentir e a pensar o que terei pensado ou sentido... mas isso não me importa agora e também não importará quando já não me puder importar!

Poderei já não estar quando estiveres a sentir e a pensar o que terei pensado ou sentido...  mas isso também não importa a ninguém… e muito menos à realidade!

O que realmente importa é que eu nasci e vivi durante este pequeno e efémero lapso de tempo e tive consciência de tal.

Nasci, vivi e morri!

Desfrutei de inumeráveis momentos maravilhosos, tal como alguns dolorosos, como este agora.

Que importa desvendar como tudo começou ou equacionar como vai terminar!

Importa viver o Agora… o meu Agora! O teu Agora!


Tu que estás agora aqui, como eu estive… 

Tu que também fazes e farás parte da história e da massa deste vastíssimo Universo…

Quando um dia, o meu, o teu, e todos os registos desta breve passagem se apagarem e caírem no esquecimento, um facto indesmentível continuará a subsistir:

Eu estou (estive) aqui… Agora!

Tu estás (estiveste) aqui… Agora! -a ler.

Eu sou (fui) alguém!

Tu és (foste) alguém!

Fui, foste, somos e fomos todos alguém!

Nós vivemos!

Nós vivemos e compartilhamos com os nossos contemporâneos esta sublime experiência!

Nós vivemos e compartilhamos alegrias, tristezas, amores e desamores!

Tudo aconteceu realmente, algures, em algum lado, neste efémero lapso de tempo!


Por isso desperta e vive o que realmente importa.

Vive intensamente a tua preciosa vida!

Agora!


 

Autor: Carlos Silva
Data: 2026-05-17
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2026-05-13

0452. Teocracias

 


Cada vez mais Teocracias infetam, consomem e aniquilam Democracias!

Cada vez mais o poder do Estado é exercido por líderes religiosos que se autoproclamam representantes máximos duma suposta entidade divina.

Cada vez mais as leis de um país se fundamentam em textos ditos sagrados ou em interpretações ancestrais de cariz acentuadamente religioso.

A história repete-se ciclicamente e revela-nos civilizações governadas por clérigos que acabam invariavelmente por se transformar em regimes repressivos e ditatoriais.

Um pouco por todo o mundo observamos inúmeras crenças religiosas a invadirem bancadas parlamentares e a implementarem os seus projetos teocráticos.

Instalam-se e coexistem com o Estado numa perspetiva de domínio e usurpação de poder, partindo sempre do princípio que este se deve submeter à lei do seu Deus.

Fruto duma precoce endoutrinação, normalmente usam as forças policiais e de segurança do Estado como braço armado para estabelecer a ordem e a moral nacionalista perante os fiéis que impiedosamente usam e exploram como produto do seu rebanho.

A suposta entidade divina transforma-se numa espécie de autoridade moral, com poderes inquestionáveis de repressão e punição, sobretudo sobre os que a ousam questionar ou pensar de forma diferente. Legitimam a violência e a obediência cega em detrimento da lei e das regras democráticas que ao longo de gerações e gerações tanto sangue suor e lágrimas custaram implementar.

Por detrás de todo o projeto religioso existe um regime repressivo que corrompe a cultura, a moral e os costumes em todos os domínios do Estado.

É o primeiro passo para o renascimento do «fascismo teocrático».

O último suspiro da democracia!

 

Autor: Carlos Silva
Data: 2026-02-06
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2026-04-24

0451. Crucificação

 


Desde a Roma antiga que a crucificação foi padronizada como um dos principais métodos de tortura e execução pública.

O corpo, frequentemente precedido de flagelação, era normalmente pregado de mãos e pés numa cruz de madeira e deixado a agonizar num lendo e interminável martírio. Um castigo usado para punir escravos, criminosos e traidores do Estado, que normalmente provocava a morte por asfixia ou exaustão da vítima. Um arrepiante quadro de medo e horror que dissuadia qualquer tipo de ação criminosa ou revolta popular.

Durante o longo período de obscurantismo da “Idade das Trevas”, esta metodologia de tortura e morte acentuou-se exponencialmente com a criação de inúmeros métodos verdadeiramente macabros e hediondos. Tendo como objetivo combater “blasfémias”, “heresias”, “bruxarias” e “feitiçarias”, obter confissões, conversões e sobretudo aniquilar desvios à doutrina cristã, a partir do século XII até ao finais do século XIX, a Santa Inquisição, idealizou e criou alguns métodos de tortura verdadeiramente atrozes, nomeadamente o potro, a roda, submersão em água ou óleo fervente, o garrote, queima na fogueira e decapitação pública, a maioria baseados em Autos de Fé, aplicados após penosos períodos de prisão e tortura.

 

«O caminho até à cruz já era parte da punição. O condenado era obrigado a carregar a própria trave pelas ruas, nu ou seminu, sob cuspes, pedradas e insultos da multidão. Soldados empurravam, chicoteavam, humilhavam. Rebeldes, escravos rebeldes ou vítimas de delações falsas desfilavam assim, enquanto Roma mostrava a todos o preço de desafiar a ordem. Não bastava matar o corpo. A crucificação destruía a alma também. Era humilhação pública, medo espalhado, um espetáculo vivo de terror. O condenado morria devagar, diante de todos, como um aviso vivo: Isto acontece com quem se levanta contra nós».

 

De acordo com a narrativa mitológica cristã, o suposto messias, “Jesus de Nazaré”, após ter desafiado o poder político de Roma, teria passado precisamente por este ritual infernal, carregando a própria cruz pelas ruas de Jerusalém, onde foi pregado e brutalmente executado sob as ordens de Pôncio Pilatos, governador da província romana da Judeia entre os anos 26 e 36 d.C.

Ao longo de séculos, este cruel método de tortura, humilhação e pena de morte, transformar-se-ia num ritual religioso, ao ponto de ser periodicamente celebrado e venerado como efeméride do Cristianismo; hoje imagem de marca global.

Uma poderosa arma de domínio político e social maquiavelicamente projetada para a sobrevivência e perpetuação; sustentada por um modelo macroeconómico de negócio fraudulento que transforma templos em empresas, crentes em clientes, e a fé num produto fictício altamente rentável.

Um produto que usa e abusa da tortura e da morte e apela a promessas de prosperidade eterna em troca de contribuições financeiras para solucionar os problemas dos seus devotos fiéis.

Um produto “milagroso” sustentado por uma poderosa e contínua campanha de endoutrinação e marketing que lhe serve de pilar.

Um produto “milagroso” que ignora a ciência e apela à supressão da reflexão e consciência humana, capaz de transformar um ato abominável de sofrimento e morte da antiga Roma num dos maiores símbolos de amor e salvação da humanidade.

 

Autor: Carlos Silva
Data: 2026-04-17
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2026-04-20

0450. “E se o cristianismo estiver de novo a ficar na moda?”

 


“E se o cristianismo estiver de novo a ficar na moda?”

 

Caro JMT…

Depois de ler o seu assombroso artigo, confesso que fiquei realmente com vontade de responder.

«O século XXI será espiritual ou não será». “Parece que vai ser” -diz.

Ora o seu “parece” é objetivamente típico do “acredito e tenho uma fé inabalável que é, ou parece que vai ser”. É caso para dizer, em pleno século XXI, parece-lhe realmente que Ele existe?!

A mim, a única coisa que me parece é que está a regressar à Idade Média!

Quanto à “campanha nos autocarros de Londres” …

«Provavelmente Deus não existe. Para de te preocupar e aprecia a vida».

Se um crente realmente doou 50 libras por entender que a iniciativa era “ótima para pôr as pessoas a pensar em Deus” … ora, pelo menos, também colocou alguns crentes como o JMT a meditar… se “Ele realmente existe... onde é que está?”. Acredito que alguém estará disposto a doar-lhe muito dinheiro para provar a sua existência!

Refere que “se os novos ateístas fossem mais sensatos, saberiam que o impulso religioso é impossível de extirpar…”. Impossível de extirpar?!

Possivelmente para um crente endoutrinado como o JMT será difícil… mas não impossível! Afinal, basta raciocinar um pouco e torna-se perfeitamente possível!

Eu “extirpei o meu; aliás, assassinei-O sem dó nem piedade! Confesso que o meu “espírito crítico” foi implacável com Ele!

“O Novo Ateísmo passou de moda e o que se está a assistir em muitos países ocidentais é o lento emergir de um interesse renovado na religião.”

“Emergir” ... ou submergir? -afinal, refere um facto concreto: “em Portugal os últimos Censos mostram que o número de portugueses que se afirmam católicos é o mais baixo de sempre…”.

Sobre a sua despedida…“Uma Santa Páscoa para todos”. Decerto estará a referir-te a “todos, todos, todos” os crentes. É que a maioria dos ateus, não celebra a morte de entidades supranaturais e muito menos a sua ressurreição.

Durante a semana da Páscoa, normalmente saio uns dias de Portugal e vou passear para não ser massacrado com esta enxurrada de patranhas.

Foi precisamente o que fiz esta semana. Fui até Auschwitz ver como é que o Exército alemão e os judeus (com o devido respeito) viveram a Páscoa.

 

Autor: Carlos Silva
Data: 2026-04-08
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2026-04-17

0499. Pete Fiction

 


Refere o jornal Público que o secretário da Guerra dos EUA, Pete Hegseth, citou um versículo bíblico falso, retirado do filme Pulp Fiction durante um sermão no Pentágono.

 

“A oração era uma adaptação do monólogo proferido pela personagem de Samuel L. Jackson. No filme, a personagem atribui-o falsamente a Ezequiel 25:17 antes de um assassinato…”

«O caminho do aviador abatido está cercado por todos os lados pelas iniquidades dos egoístas e pela tirania dos homens malvados. Abençoado seja aquele que, em nome da camaradagem e do dever, guia os perdidos pelo vale das trevas, pois ele é verdadeiramente o guardião do seu irmão e o descobridor das crianças perdidas. E eu castigarei com grande vingança e ira furiosa aqueles que tentarem capturar e destruir o meu irmão. E saberás que o meu indicativo de chamada é Sandy 1 quando eu derramar a minha vingança sobre ti.»

 

“Pete Hegseth, citou um versículo bíblico falso…” -mas existe algum versículo verídico na Bíblia? Quando digo “verídico”, obviamente não refiro o texto escrito e rescrito por clérigos ao longo de séculos ou se descreve o recente “caminho” de algum “aviador”, mas sim a mensagem, a ética, o valor científico e utilidade para a humanidade. Quem, de consciência minimamente sã, pode usar como referência um livro que contém relatos de genocídios, infanticídios e leis completamente absurdas?

Até à presente data desconhece-se o objeto de estudo da Teologia e consequentemente a sua utilidade; e, pelo que constato, não são apenas os “legítimos representantes da Igreja Católica” (I.C.) que andam a estudar o “livro sagrado”. Os políticos católicos americanos também estão a adaptá-lo e a usá-lo (alegadamente violando a própria narrativa) para endoutrinar e incentivar os seus militares a rezar e a combater[1] em nome do Dito.

Recentemente, o representante máximo da I. C., o americano Leão XIV, desmentiu e condenou veementemente o uso da religião (em nome do Dito) como bênção/justificação para ações bélicas.

Os novos representantes americanos, cientes da força da sua legitimidade, aconselharam o Papa a “estudar Teologia”, porque, afinal, eles é que estão realmente certos!

Entretanto, na sua viagem por África, nos Camarões, Leão XIV, voltou novamente a apelar à paz, salientando que “este mundo está a ser devastado por uma mão cheia de tiranos” com guerras e exploração.

Confesso que não vi o filme Pulp Fiction, mas, pelo menos, fiquei a saber que a personagem do Samuel J Jackson recitava o versículo supracitado, ou o versículo adaptado, sempre antes de assassinar alguém.

Ora, se o versículo original que homologa e instiga os ditos representantes divinos a “matar e vingar em nome do Senhor”,  só por si, já choca qualquer mente humana minimamente racional, então, o que dizer destes novos (i)legítimos representantes da Teocracia Americana que abençoam a guerra com citações de filmes violentos de ficção, em nome do Dito e com acesso ao maior arsenal bélico e nuclear do planeta?

Pois, podem perfeitamente fazer o mesmo que a personagem de Samuel L. Jackson, se alguém não pensa como eles, não dá o que pretendem, ou simplesmente não tem a mesma religião: mata-se e está o assunto resolvido!

 

Autor: Carlos Silva
Data: 2026-04-16
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[1] Matar