Autor: Carlos Silva
Data: 2017-03-07
Imagem: Internet
Obs:
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«Je suis Charlie!».
Eis o grito de revolta que hoje mais se ouve em todo o mundo.
E
não é que sou mesmo… Charlie[1]? Pois é, o meu nome também é Carlos!
E
também não consegui ficar indiferente aos atentados de hoje em França. Je suis
Charlie! Eis o meu grito de revolta! O grito de revolta pelo direito à vida. O
grito de revolta pela liberdade de expressão e de imprensa.
O
grito de revolta contra a barbárie, contra o extremismo, contra a violência…
O
mundo está horrorizado com os atentados em França! O mundo está horrorizado com
os atentados em Espanha! O mundo está horrorizado com os atentados no Reino
Unido! O mundo está horrorizado com os atentados nos EUA! O mundo está
horrorizado com todos os atentados em todo o mundo!
Como
é possível?! – eis a questão que hoje todos se colocam. Como é possível que
ainda existam seres humanos que comentem esta horrível barbaridade em nome de
supostas divindades?! – disse supostas! – porque são atos em nome da mais
rudimentar inconsciência humana … em nome de nada!
NÃO
EXISTE DEUS!
NÃO
EXISTE DEUS… o que torna estes atos ainda mais absurdos!
Não
existe argumento racional que sustente tal genocídio!
Decerto
muita coisa mudará depois deste horrível atentado… Não se pode ignorar toda
aquela multidão, todas aquelas vozes clamando por justiça, não se pode ignorar
tantos «Charlie’s» juntos!
Je
suis Charlie! É preciso que sejamos cada vez mais! Cada vez mais vozes! Cada
vez mais… Je suis Charlie!
Este
tipo de atentado agita, desafia a consciência humana… Este tipo de atentado
fere, perturba a sensibilidade humana… Este tipo de atentado coloca em risco os
mais elementares valores da humanidade… – valores adquiridos ao longo de
gerações e gerações pelos quais tantos lutaram, alguns com o sacrifício da
própria vida… Este tipo de atentado exige que se defenda a dignidade da pessoa
humana! Este tipo de atentado exige uma ação global e universal!
Também
ouvi que: «O Charlie Ebdo choca!», «O Charlie Ebdo choca tanto como o
fundamentalismo!», «O Charlie Ebdo semeia ventos e colhe tempestades!». E de
forma algo mais moderada que «não devemos associar a violência à religião!».
«Choca…».
Como
pode chocar tanto assim… um simples lápis? Como pode chocar tanto assim, ao
ponto de apagar vidas humanas?
Não
se consegue dissociar violência de religião, é verdade… e não conseguimos
sequer entender o porquê dessa associação… Talvez porque não enxerguemos ainda
nem uma nem outra!
A
animalidade resulta essencialmente da nossa falta de civismo e educação… esta
pode ser uma justificação coerente, mas não será a única para o gigantesco
caminho que teremos de percorrer…
Idolatrar
«divindades» é talvez uma das mais primárias e absurdas tradições da espécie
humana. Toda a idolatria é um mero absurdo… uma verdadeira inutilidade.
É
preciso que este ser humano esteja ciente de que, para ser um bom ser humano,
não tem necessariamente de idolatrar o que quer que seja, ou quem quer que
seja! Basta ser ele, sem máscaras ou vendas!
«Bento XVI avisa Francisco que o celibato dos padres não deve ser
abandonado
A
posição do papa emérito é colocada em livro, numa altura em que o atual Papa
terá de se pronunciar sobre a possibilidade da ordenação de padres casados na
Amazónia.»
PÚBLICO, 13 de janeiro de 2020
Não.
Não é piada… e estamos realmente no século XXI.
«O
celibato na Igreja Católica» é a notícia que nestes últimos dias tem estado no
topo da atualidade. Agora, a Igreja já admite discutir a licitude, ou
ilicitude, do celibato dos padres! Afinal, a inevitável realidade é que, perante
esta milenar ilicitude, a Igreja corria o risco de num futuro muito próximo não
ter padres para concretizar as suas homilias… Portanto, a antecipada conclusão
deste divino concílio terá inevitavelmente de ser: é lícito, ou, por outras
palavras, «é permitido».
De
forma simples e objetiva, o papa e os sacerdotes, supostamente sem nenhuma
experiência prática, diga-se de passagem, vão discutir se podem ou não
fornicar. Visto à luz da própria instituição, ou pelo menos dos mais conservadores,
é caso para dizer, ao que haveríamos de chegar! Será, no mínimo, uma
imoralidade… um autêntico pecado!
Se
a Bíblia refere que «toda a prática sexual é condenável por Deus», se «da
costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez a mulher, e levou-a para
junto do homem» … como é que agora se admite a cópula entre fiéis seguidores?
Homem e mulher? Prática condenável pelo próprio Deus?
Os
fiéis pretendem que o Vaticano ordene o celibato dos padres. É humanamente
compreensível a sua posição. É perfeitamente normal e natural. Aliás, estão no
seu pleno direito. Todos devemos ter esse direito.
Mas…
e se algum desses membros for homossexual? Não terá também o mesmo direito? Não
se poderá também casar?!
No
passado, era perfeitamente legítimo «matar em nome de Deus». No passado,
questionar a «morte em nome de Deus» significava precisamente a morte!
Ainda
hoje, em alguns lugares do planeta, é uma honra «matar em nome de Deus»… e uma
ofensa discutir ou duvidar do «nome de Deus». Em nome de «Cristo», em nome de
«Alá», em nome de qualquer divindade…
Quantos
milhões de seres humanos, inconscientemente e inutilmente, não terão perdido a
vida ao longo destes últimos dois milénios?!
É
verdade que não se pode «confundir religião (islâmica, cristã ou outra) com
terrorismo», mas também é verdade que a «religião» é a principal motivação para
a violência, para o terrorismo, para tantas outras barbaridades… e normalmente
culmina com a morte! É realmente verdade que ainda hoje se continua a «matar em
nome de Deus»!
O
conceito de «Deus» varia de religião para religião, conforme as circunstâncias
e a zona do globo onde teve origem; mas foi (e ainda é), praticamente em todas,
nomeadamente nas monoteístas, legítimo «matar em nome de Deus»!
As
ditas religiões monoteístas, como a católica, a islâmica, a judaica, pregam a
paz, o amor, a eternidade… é verdade, mas também é verdade que todas vivem em
constantes conflitos sociais ou em guerras fratricidas… para todas, o seu
«Deus» é o único, o verdadeiro, o autêntico, os outros são falsos ou
infiéis…nenhuma suposta religião tolera ou respeita a outra suposta religião!
Ao
longo dos séculos tem-se assistido (e ainda assiste) às mais cruéis e bárbaras
carnificinas, aos mais bárbaros atos de fanatismo religioso… é uma realidade
inegável!
O
Cristianismo chamou (e ainda chama) aos judeus «filhos do diabo» e «responsáveis
pela morte de Jesus», o que faria com que milhares de judeus fossem
horrivelmente queimados vivos se não se convertessem à sua fé…
Inicialmente
comandadas por um Papa, as Cruzadas tinham como principal objetivo recuperar a
chamada «Terra Santa» em nome da fé, acabando por protagonizar algumas das mais
horrendas batalhas da nossa história… O Islamismo invadiu praticamente todo o
Médio Oriente, a Península Ibérica e o Norte de África através da sua guerra
santa (jihad), que se estendeu por séculos e que tinha como principal objetivo
destruir e eliminar os infiéis… nomeadamente os cristãos e a fé dita cristã…
Como
disse Saramago, «matar em nome de Deus… converte esse Deus num assassino».
É
uma inconsciência «matar em nome de Deus»! É uma inconsciência matar em nome de
um conceito abstrato! Matar em nome de Nada! É um crime matar em nome de
alguém! Diria mais, o ato converte, não esse suposto Deus (porque se trata de
uma imagem mental e abstrata), mas sim o ser humano num assassino!
Esta
é a terra prometida, a sagrada,
A
terra onde nasceu o eterno senhor,
A
terra onde morreu e renasceu salvador,
A
terra a que deu vida por tudo e nada.
Esta
é a terra esfomeada, a real,
A
terra onde vive o efémero humano,
A
terra onde mata e morre desumano,
A
terra da guerra entre bem e mal.
Aqui
não há milagres nem infinitos,
Aqui
não há crenças nem mitos,
Aqui
tudo é absolutamente natural.
Aqui
nada se perde ou cria, tudo esquece,
Aqui
santo (e humano) tem o que merece,
Aqui
nesta terra todos vivem e morrem igual.