2018-02-08

0039. Sobre o livro "A Bíblia"





Que palavras para tão desmedido pensamento?!

Urge soltar tão repentina inspiração neste primeiro dia do Novo Milénio!

Algo desperta a minha atenção… por momentos algo suspende a minha emoção…

Vou ao milénio passado[1] buscar um livro… A Bíblia.

Ao abri-lo[2], simplesmente para recordar o que o outrora adolescente interpretara e contrapor precisamente com o que agora pensava, reli as primeiras palavras do preâmbulo: «Este é um livro de verdades absolutas, de verdades para todas as gerações». «Há certezas eternas, garantidas por Deus. Elas são a segurança do nosso existir.»

Parei imediatamente! Parei impelido pela necessidade de refutação… «Meu Deus!»[3], como pode um mero livro deter Verdades Absolutas?

Fechei imediatamente!

Regresso ao presente… ao presente Milénio! Ao novo Milénio! Regresso ao debate interior sobre a insipiência… quão vasto caminho… Regresso ao não-saber… ao debilitar esta distância desmedida…

É espantoso como o sabor a inverdade me desperta o debate interior! Porque sinto que toda esta cegueira[4] prejudica gravemente a inteligência humana? Porque sinto que todos estes «milagres» são inequivocamente inverdades tradicionalmente adquiridas? Porque sinto que tudo não passa evidentemente de ilusões? Porque sinto que o ser-religioso não passa de um ilusionado? Um estulto aculturado… uma criança adulta cuja perceção da realidade se assemelha, não ao que realmente é, mas ao que deseja que seja… e ao que deseja ser!

Observo e constato este mar de lágrimas e sangue derramados…

Observo e constato este desumano e horroroso sofrimento …

Observo e constato estes ódios e guerras fratricidas…

Observo e constato estas crucificações e mutilações aberrantes… uma teia milenarmente enraizada na sociedade e na cultura, associada e controlada pela ideia de Bem e Mal[5]… pela explicação sem explicação para toda a desgraça, pela absurda necessidade de perfeição… pela obcecada aspiração de eternidade e imortalidade…

Tudo terá começado com a adoração de um suposto «deus-Sol» pelas mais antigas civilizações. Porém, nestes dois últimos milénios, assistiu-se à transmutação pelas mais diversas crenças[6] dos rituais e, sobretudo, a comutação da divindade[7], que passou a assumir a figura humana e a sua adoração divina… cega… única… e obrigatória! O pão que alimenta o espírito… sobretudo dos mais pobres de espírito…

Porque nunca se fundamentou ou impôs este «espírito sagrado» durante tantas e tantas gerações… até às portas do novo Milénio?

Obviamente por não existir! Obviamente por despertar a negação ao natural espírito humano… ao livre e deslumbrante pensamento humano!

Jamais o que não é pode ser… por mais perfeito que o façamos querer ser ou parecer!

Basta observar e constatar o quanto a «religião» tem afastado o ser humano do seu meio natural… Basta observar e constatar como é hoje usada a «religião», não pelos «ditos cristãos», fiéis seguidores que a praticam em nome do bem-estar da humanidade, mas, sobretudo, pelos «ditos humanos» que, tendo a perfeita noção da sua inexistência e do seu poder, a usam discricionariamente, para submeterem, controlarem e manipularem amplas massas sociais no seu próprio proveito e benefício, acabando por, em seu nome, criar verdadeiras monstruosidades…[8], ideais profusa e cegamente seguidos… procurando possíveis respostas …

Este mero exercício de racionalidade é apenas uma escolha natural das hipóteses mais prováveis, ou aparentemente mais credíveis… apenas uma mera opinião. Decerto não mudará o percurso do pensamento e da ação humana… esse não é o espírito[9] apenas observar e constatar, respeitando todos os pensamentos desmedidos…

Fechei o livro. No meu desmedido pensamento, observo e constato… e, neste novo milénio, abrem-se outros horizontes…

 



[1] Estante

[2] A segunda vez que abri… na primeira desistira de ler…

[3] É caso para dizer!

[4] Dita religiosa

[5] Paraíso e Inferno

[6] A pagã… a cristã… a muçulmana…

[7] Sol

[8] Cruzadas, Inquisição, Jihad

[9] Objetivo


Autor: Carlos Silva
Data: 2001-01-01
Imagem: Internet
Obs:
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